quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A teia de Guarnerius (conto de Alma Welt)

A Ilha dos Mortos, de Arnold Böcklin
 
A teia de Guarnerius
(conto de Alma Welt)


 

Muito já se falou das relações entre Música e Pintura. Não são tão óbvias, afinal, e a sutileza dessas relações é instigante.

Estou imersa na pintura de uma grande tela da minha nova “fase musical”, da qual acabo de realizar uma exposição numa galeria.

Escolhi, agora, para ouvir enquanto trabalho, as “Árias Sertânicas” do Elomar, o querido menestrel do sertão. Trata-se de um compositor, cantor e violeiro erudito, como vocês sabem, e cheio de ecos medievais.

              Coleciono, ultimamente, reproduções de obras pictóricas que inspiraram composições musicais e vice-versa. Soube que quadros de pintores russos foram identificados por pesquisadores através da música descritiva de Mussorgsky dos “Quadros de uma exposição”. Assim também o famoso quadro a “Ilha dos Mortos” de Arnold Böcklin foi ilustrado pela música maravilhosa de Rachmaninov...

Toca o interfone. Aborrecida com a interrupção atendo a portaria que anuncia um homem desconhecido, que não marcou hora. Peço ao porteiro que ponha o desconhecido na linha. Trata-se de alguém que se diz violinista e que quer fazer uma encomenda. Diz ser fã do meu trabalho e pede-me para visitar-me. Não devia, mas mesmo um pouco receosa aceito recebê-lo e o convido para subir, embora tenha notado algo estranho em sua voz. Algo como uma vaga ansiedade e talvez dissimulação.

Posso estar enganada: não tenho elementos para qualquer desconfiança séria. A verdade é que sou vaidosa e quando alguém se diz meu fã, só por isso, já sai ganhando minha confiança. Gosto tanto da minha própria arte que desconfio, sim, das pessoas que não compartilham dessa admiração. Não me parecem interessantes. Desculpem-me. Sou assim.

Entretanto, aborrecida por interromper o trabalho, abro a porta pensando em desculpar-me e dispensá-lo marcando outro dia para a sua visita, quando a visão do jovem violinista me suspende a voz.

Trata-se de um belo rapaz de uns vinte anos, muito bem vestido e nitidamente artista, com cabelos ondulados, vastos, à maneira do século XIX. Sobrancelhas grossas, aquilinas e um nariz de gancho italiano, como o de Dante. Uma estranha febre queima-lhe o olhar. Ele entra, um pouco intempestivo, arrogante, fazendo-me recuar para apertar-lhe a mão. Vejo que ele quer impor-se logo de saída e então concentro-me em juntar o meu modesto arsenal de defesa e ataque emocionais.

Ele senta-se sem ser convidado e depois de olhar-me penetrantemente a ponto de me causar calafrios, diz:

— Vi sua exposição e apreciei sua fase musical. Você é a artista que escolhi para o retrato do Duo. Meu nome é Alexandre, sou violinista e trabalho com minha irmã Irma, pianista. Diga-me o que precisa, o seu preço para um grande retrato e tudo mais. Mas comece logo, tenho pressa e imensa necessidade desse duplo retrato.

Espantei-me com sua atitude impositiva. Ia responder-lhe à altura mas lembrei-me das dificuldades financeiras em que vivo e resolvi ser humilde e aceitar o jogo. Fingi naturalidade e contive uma veia irônica que aparece quando estou insegura.

— Claro, Alex, por que não? Se você me escolheu, fico lisonjeada. Só por isso você merece que eu faça o tal retrato. Quando quer que eu comece? Mas diga-me, o que o fez pensar em mim para um retrato, se a minha fase musical é semi-abstrata? Não sou pintora acadêmica, você sabe, não espere de mim um retrato tradicional.

— Não, não, respondeu. É você, tenho certeza. Tem toda a liberdade, desde que seja um duplo retrato, isto é, o retrato do Duo. Mas é preciso que venha à nossa casa. Ali temos os nossos instrumentos e você terá tudo o que precisa. Você pode me acompanhar já? Agora? Estou ansioso em apresentar-lhe Irma.

Senti-me sendo aliciada, um tanto pressionada, mas a curiosidade, meu principal defeito ou qualidade, venceu.

Acompanhei-o afinal, sem hesitações. Quando embarco, embarco. Lá fomos nós, elevador abaixo, depois até à rua, passando pelo tal porteiro indiscreto, que me olhou agora com um ar de censura nada paternal. Esse homem me irrita. Parece querer controlar minha vida, de maneira suspeita. Mas, deixemos isso para lá...

O carro de Alex, um belíssimo carro importado, surpreendeu-me, embora eu não seja ligada nessas coisas. Mas, um violinista...

No trajeto Alex procurou mostrar-se encantador e cumulou-me de elogios, inclusive à minha beleza, que o teria surpreendido. “Não esperava mais que uma pintora de talento”, o que me fez sorrir. Como se fosse pouco... Enfim, quem não gosta de elogios? Vanitas, vanitatis...

Chegamos afinal à casa de Alex. Fiquei boquiaberta. O carro atravessou um imenso portão de ferro meio art nouveau e subiu uma alameda sombreada por imensas árvores até o topo de uma colina onde estava plantada uma enorme mansão. Um verdadeiro palacete.

Meu assombro e curiosidade aumentavam. Entramos pela porta senhorial, num imenso vestíbulo, de mármore, estranhamente vazio, sem nenhum móvel. Alex ia agora na frente siceroneando. Não havia nenhum mordomo, o que me surpreendeu, dada as dimensões da casa. Na verdade não se avistava nenhum empregado e comecei a perceber alguns sinais de decadência, aqui e ali, nos poucos móveis, no estranho vazio das salas, que às vezes ostentavam apenas uma pilha de partituras sobre o assoalho, no centro, insolitamente.

Conduziu-me por uma imensa escada, maravilhosa, em caracol, ao andar superior, atravessamos corredores vazios, uma ou outra cômoda antiga, belíssimas, e marcas vazias de quadros nas paredes, com cachos de poeira pendendo dos pregos. Eu estava atônita. Afinal bateu cuidadosamente os nós dos dedos numa porta fechada, que demorou a abrir-se. Apareceu uma bela moça de olhar brilhante e cabelos pretos presos em cima a maneira do penúltimo século. Alex apresentou-nos. Era Irma, a irmã pianista, que estendeu-me sua bela mão de dedos compridos. Notei também seu pescoço comprido, de bailarina, parecido com o meu. O cabelo levantado destacava graciosamente a curva sutil da nuca, no ápice da feminilidade. Minha simpatia estética foi instantânea.

Acompanhou-nos pelo corredor até um quarto mais ao fundo onde, entrando, deparei com um verdadeiro salão com apenas um piano de cauda, negro, imenso e uma estante de música, ao lado, com partitura aberta. Próximo do centro, um grande cavalete de pintura novo, sem uma mancha de tinta sequer, causou-me má impressão. Para um pintor, um cavalete limpo é horrível, quase como um cadáver: não respira.

Alex olhou para nós ardentemente e com gestos nervosos abriu a tampa do piano, ajeitou a partitura que se encontrava nele e pediu a Irma que se sentasse na banqueta. Dirigiu-se até um canto onde apanhou uma caixa de violino que se encontrava no chão, tirou-o e dirigindo-se à estante olhou impositivamente a irmã, com um olhar de maestro, e atacou a Rapsódia Húngara de Liszt, acompanhado nervosamente pela pianista. Não pude deixar de notar o olhar incomodado de Irma, apesar do talento visível e audível dos dois.

Deixo-me envolver pela música maravilhosa e empolgante de Liszt, tocada divinamente pelo Duo. Depois os dois me olham ao mesmo tempo e eu os aplaudo, acenando também com a cabeça em assentimento. Estou pronta para aceitar sem mais reservas a encomenda.

Alex recomenda-me que compre uma tela bem grande. Que eu não poupe dinheiro, que mande todas as faturas do material para ele. Mas, sobretudo, faz questão que eu me mude para sua casa. Dito isso, enquanto caminhamos no corredor, abre subitamente uma porta e mostra-me um belo quarto, para minha surpresa, totalmente mobiliado com uma grande cama de dossel, com os lençóis novos, lindos, e grandes travesseiros. Armário, cômodas, penteadeira com escovas e perfumes e até cosméticos. Tudo extremamente novo como se preparado para uma hóspede especial, que percebo ser eu, quando olho o rótulo de meu próprio perfume sobre a cômoda. Alex dera-se ao trabalho de investigar isso na galeria, certamente. Dou um sorriso e digo a ele, que não parou de me surpreender desde o nosso encontro algumas horas atrás.

Depois, ele me leva de volta ao meu prédio para que eu possa preparar minhas malas e providenciar os materiais, combinando voltar dentro de poucos dias.

Passados três dias de preparativos, em que Alex não deixou de me ligar um só dia, declaro estar pronta e com as encomendas encaminhadas para a casa dele. Que ele venha me buscar.

Instalo-me, afinal, no meu quarto de hóspede que agora ostenta flores sobre a cômoda. Uma grande corbeille com um galante cartão: “Para a Pintora tão esperada, nossas homenagens. Alex e Irma”. Sorrio e reponho o cartão no meio das flores. Preciso agora deitar-me e dormir o sono das “justas”.

Lá pelo começo da madrugada, já estou sonhando. Estranhos presságios povoam meu sonho. Estou descendo por uma tosca escadaria de pedra de uma caverna até um salão abobadado atraída pela música de um violino hipnótico. Ali encontro uma sombra sem rosto, embuçada e encapuçada, que toca o violino com incrível virtuosismo. Sou envolvida por essa música e começo a flutuar em seu som enquanto a sombra me leva por este meio a um corredor sem fim que sai desse salão. Tenho medo, pois sinto-me descer ao seio da Terra. Algo me diz ser uma viagem sem volta. Debato-me no ar parado que estranhamente me conduz nas ondas da música. Agarro-me a uma estalactite que se quebra. À outra, e ainda à outra. Abro a boca para gritar o nome de Alex e acordo.

Em frente à cama está ele, o violinista, com seu estranho olhar fixo e brilhante. Ele faz schhh! schhh! entre dentes, com a poderosa mão direita estendida, apaziguando. Tem o violino e o arco na mão esquerda. Soergo-me na cama e olho para ele, que me aquieta, faz-me deitar novamente, cobrindo-me quase paternalmente. Depois sai apagando novamente a luz com o dedo nos lábios sempre fazendo um schhh schhh calmante. Viro-me de lado e durmo tranqüila.

Acordei bem cedo e tendo-me vestido encaminho-me para a escadaria para procurar a cozinha. A casa está terrivelmente silenciosa. De súbito, ouço vozes que vêm de um quarto, em diálogo exasperado. Distingo, surpresa, a voz de Alex num tom inusual de súplica, e a voz de Irma reticente, inflexível, teimosa. Disfarço a tentação, faço um esforço para não colar o ouvido à porta e discretamente sigo em frente.

Na cozinha espera-me um café da manhã pronto misteriosamente. Logo chega Alex para toma-lo comigo. Pede desculpas por Irma que não vai descer, pois está dormindo. (Estranhei esta pequena mentira).

Alex procura mostrar-se encantador, mas noto-lhe uma certa tristeza e nervosismo. Tenta falar sobre pintura, mas seu pensamento realmente está lá em cima, percebo.

Peço-lhe licença e subo para o ateliê para preparar o material. A imensa tela quadrada chegou ontem à tarde. Desembalo-a com esforço: não tenho ajudantes.

As dez horas em ponto, os irmãos entram no ateliê, Irma senta-se ao piano, Alex pega seu instrumento e poem-se a tocar durante um certo tempo, enquanto preparo as tintas sobre uma paleta nova. Depois param e permanecem imóveis enquanto esboço o quadro. Estávamos lançados à aventura. Assim eu o sentia. Agora tudo podia acontecer. Ah! Como eu estava certa, por outras razões, sem o saber.

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Estou aqui já há duas semanas. Temos nossa rotina de trabalho e o quadro avançou rapidamente no início. Os irmãos sempre tocam para mim, ou para eles mesmos, antes de posarem e isso me é muito agradável. Não me canso de admirar-lhes o virtuosismo e sua beleza de músicos divinamente dotados. Todavia, noto que o casal de irmãos, agora, pouco se fala e Alex permanece com aquele olhar febril e aquele nervosismo crescente. Irma parece estar fazendo algo contra sua vontade ao posar, e isso me deixa também incomodada. O quadro parou de avançar como se sua progressão andasse em círculos. Bem, o domínio que um artista tem de seu quadro é relativo. A obra de arte comanda a si própria em certa medida e não fazemos mais que cumpri-la. Mas se houvesse um outro clima nas sessões, creio que a coisa fluiria melhor. Alex parece, agora, sabotar o processo retirando-se a toda hora a pretexto de providenciar pequenas coisas. Uma vez, retirou-se para aparar as unhas, quando estava, apenas posando e não tocando. Começo a desconfiar que algo se passa que me é estranho, do qual não sou participada. Irma olha às vezes o irmão com um olhar quase de ódio. Alex mal consegue encará-la, todavia deita-lhe um olhar que a abrange por inteiro, como uma ave de rapina.

Agora, ouço, cada vez mais, discussões e murmúrios amargos atrás das portas. Tenho a sensação de estar sendo usada sem atinar o por quê. As semanas se passam e Alex procura manter-se encantador comigo. Mas percebo nele um quê de manipulador. Usa freqüentemente a lisonja vã, inútil. Será que ele subestima minha inteligência? Se as coisas progredirem no rumo em que estão tendem a se tornar insuportáveis, mas não sei bem por que. Há um mistério em tudo isso.

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Acordo no meio da noite com um rumor de soluços e palavras ásperas. Uma amarga discussão fere o silêncio da noite naquele corredor soturno. Não resisto e, revoltada, saio de peignoir para ouvir junto à porta do quarto de Irma. Ouço-lhes claramente as palavras pela primeira vez, talvez com a ajuda do silêncio da madrugada. Alex promete-lhe algo mas exige que ela cumpra o trato. Que trato? Estou muito atenta à mínimas palavras e inflexões para destrinchar este enigma. Alex dirige-se, afinal, para a porta, eu o sinto, e corro a esconder-me em meu quarto. Meto-me na cama como uma criança travessa e curiosa. Mas com uns poucos dados a mais para a solução do mistério.

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As sessões de pose do retrato estão cada vez mais penosas. Alex sabota cada vez mais o processo, agora fazendo críticas impertinentes. Têm dias que não comparece às sessões, encerrando-se em seu quarto com pretexto de enxaquecas.

Um dia apareceu no ateliê com o pé enfaixado, apoiado em uma bengala antiga, de família, uma verdadeira antigüidade. Queixava-se de gota, o que me pareceu decididamente demodée, num decadentismo bem a seu gosto. Tinha de munir-me de imensa paciência. O quadro não avançava. As semanas se passavam. Um dia pus-me a trabalhar febrilmente no quadro sem os modelos. Descobrira que não necessitava mais deles. Em pânico, Alex entrou no ateliê e fez tal agitação que acabou tropeçando e derramando um litro de solvente sobre a tela, num suspeito acidente. Isso foi demais! Atirei os pincéis ao chão, furiosa diante da tela escorrida. Tinha vontade de bater-lhe. Ele não me enganava mais. A sabotagem era explícita, embora ele gaguejasse desculpas. Retirei-me chorando para o meu quarto, atirando-me em soluços sobre a cama. Pouco depois, ele invadiu o quarto implorando perdão. Logo recuperou seu auto-domínio e começou a exercitar o seu charme com um tom consolador. Puxou minha cabeça para o seu peito e abraçando-me propôs-me uma festa de reconciliação para nós três.

Aquela noite nós nos divertiríamos.

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À tarde, estando ociosa, perambulei pelo casarão. O trabalho estava suspenso, sentia-me livre para exercitar a minha curiosidade. Fazendo hora para esperar a noite de festa, abria todas as portas, deparando-me com quartos e salões totalmente vazios. Era evidente que os irmãos viviam há muito tempo da venda dos móveis e objetos da família.

Finalmente encontrei um aposento totalmente mobiliado. O escritório ou biblioteca. Continha a estória da família em centenas de fotos nas paredes ou em porta retratos sobre a mesa e as estantes. Distinguia-se entre retratos de músicos famosos, maestros, violinistas, pianistas etc., as fotos do pai de Alex e Irma. Um maestro de maravilhoso semblante espiritualizado. E da mãe, pianista famosa na juventude, de quem Irma nitidamente puxara os traços e a beleza. Esta tinha um ar resignado, de quem renunciara a sua vocação de concertista para dedicar-se à família.

Alex herdara os traços do maestro, mas sem aquela serenidade e espiritualidade. Na verdade, perto daquela fotografia, a de Alex parecia a de uma alma perdida. Tive um calafrio. Tristes pressentimentos me assaltavam. Continuei olhando os prêmios e diplomas copiosos pelas paredes. Um prêmio de solista recebido por Alex aos doze anos, menino prodígio, com seu espesso cabelo crespo e já com um olhar de pequena águia, ao lado do indefectível retrato a lápis de Paganini, com seu violino debaixo do braço, de autoria de Ingres. Reparei que o olhar de Paganini, com sua injusta fama de alma danada, era doce comparado ao de Alex.

Notei também que o casal de irmãos fazia um Duo desde a infância. Fotos e recortes de jornal atestavam isso. Parecem ter feito muito sucesso. Aqui uma notícia notável: Alex, aos vinte anos, tocando com Irma ganha um famoso concurso internacional. Seu prêmio, dado pela Comunidade Musical Italiana: um violino Guarnerius! Noto também que o olhar de Alex sempre se dirige à irmã nas fotos de concerto, de entrevista e de notícias nos jornais. A obsessão já era visível. Por que não pensei nisso antes? Uma suspeita insinua-se em minha mente. Saio correndo deste aposento carregado de memórias.

Estou furiosa. É evidente que estou sendo usada por Alex. Não há mais dúvida e já suspeito o por que. Resta-me descobrir o motivo das discussões entre os dois. Vou tirar isso a limpo, antes que alguém se machuque. Não serei eu. Não admito! Não admito...

Ao crepúsculo, chega um carro esporte conversível vermelho deslumbrante. Olho pela janela do meu quarto sua chegada ao pátio entre a casa e o jardim. Vejo um belo jovem elegante, que olha para cima, para as janelas por alguns segundos. Escondo-me instintivamente atrás da cortina. Alex vai ao seu encontro e os dois se confrontam diante do carro. Há uma discussão. É evidente que o Alex quer expulsá-lo. Ele empurra Alex e, gritando por Irma, corre para dentro da casa. Alex corre atrás e após alguns segundos os dois rolam para fora agarrados e aos murros. Parecem desesperados, principalmente Alex.

Afinal, o rapaz, batendo o pó da roupa e limpando o sangue dos lábios com as costas da mão, entra no carro e sai guinchando os pneus. Alex brande os punhos desvairado e reentra na casa. O silêncio volta a reinar.

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Chega a noite. Visto-me com o meu melhor vestido, um longo dourado deslumbrante. Devo estar à altura das circunstâncias. Preciso estar bela. Sinto que esta festa é um armistício numa espécie de guerra incompreensível. Não sei bem onde estou pisando, mas aceito o desafio. Pressinto que devo me aproximar mais de Irma. Ela é a chave desse enigma. Quem é ela? Por que vive aqui com o irmão, uma moça tão linda? Por que se sujeitou a sua visível tirania? Ao mesmo tempo é evidente que está se rebelando. Daí o conflito, a tensão perceptível no ambiente.

Às onze horas desço a escadaria. Sinto-me bela, meu cabelo brilha, meus lábios ostentam um leve batom voluptuoso. Diverte-me a idéia da descida hollywoodiana da escada em caracol. Alex e Irma esperam-me embaixo no grande salão. Estão belíssimos. Alex num primoroso smoking e Irma num longo prateado com um espantoso colar antigo, de família. Como sobrou isso? pensei sem querer...

Recebem-me estendendo-me as mãos ao mesmo tempo. Como são graciosos!... Estarei a altura deles? São verdadeiros aristocratas e eu me sinto tantas vezes uma operária da pintura. Não, não. Somos da mesma estirpe, devo reconhecer. Nada de falsa modéstia. Nada de situações falsas, se possível. Odeio situações falsas.

Alex, que tem um braço para trás, escondendo algo, revela subitamente um trio de meias-máscaras de Veneza. Era só o que faltava. Escolhemos nossas máscaras e não mais as tiraríamos por muitas horas. A noite era uma criança, como se diz. Tudo poderia acontecer. No meio do salão uma pequena mesinha redonda de perna alta ostentava um candelabro com velas e uma garrafa de vinho com três taças. Alex nos serve e a seguir liga uma vitrola de prato com um antigo disco de vinil. Ouve-se o som de uma banda de jazz dos anos trinta. Alex sempre surpreendente...

Os irmãos, subitamente, como que ensaiados, começam a sapatear com perfeição e graça no estilo Fred e Ginger. Fazem um número inteiro, encantador. Aplaudo entusiasmada este outro talento inesperado dos dois. A noite promete ser cheia e agradável. Como Irma é bela e graciosa! Começo a compreender Alex a medida que o vinho sobe lentamente e libera-me. Tiro-a para dançar, sob o olhar aprovativo de Alex. Fazemos charme para ele, dançando de rosto colado, as duas, como namorados. De repente, beijamo-nos nos lábios. Alex revira os olhos num gesto engraçado, girando o corpo e deslizando como Fred Astaire com uma bengalinha invisível. Sentimo-nos todos charmosos e o jogo promete continuar noite a dentro. Alex agora tira-me dos braços de Irma e colando seu rosto ao meu faz uma espécie de picuinha cênica para a irmã que finge ciúme. Logo estamos os três dançando juntos abraçados com os rostos colados. Separamo-nos para buscar mais vinho, sempre sem parar de dançar e sem tirar nossas máscaras. Elas parecem nos proteger: ousaremos tudo esta noite.

Após horas de vinho, música e dança, inebriada, sinto-me apaixonada por estes dois. Formamos um portentoso trio, me parece tudo perfeito.

Quero coisas que nem ouso pensar. Os dois colam-se a mim prensando–me voluptuosamente. Sinto os seios de Irma achatados sobre os meus e o volume do pênis de Alex entre as minhas nádegas. Deixo-me levar escada acima puxada ora por Irma ora por Alex, a cada degrau, sempre no ritmo da música de jazz. Chegamos, afinal, ao meu quarto e lançam-me sobre a cama. Alex, que já retirara o paletó e a camisa na escada, tem somente a gravata borboleta no pescoço nu, enquanto Irma faz desabar seu longo com um único golpe de zíper. Ainda com o colar no pescoço atira-se nua sobre mim enquanto Alex puxa-me o longo pelos pés junto com a calcinha, com habilidade satânica. Sempre virtuoses, manobram-me como um violino ou como um teclado. Quero morrer de prazer. Fazem um maravilhoso sanduíche com meu corpo, ora um, ora outro por cima. Beijam-me ardentemente o corpo todo e devassam-me com suas línguas, revezando-se lá embaixo, atrás, na frente. Explodo em orgasmos e sacudimos os três simultaneamente. É a perfeição! Mergulhamos no sono dos deuses quase ao alvorecer.

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Perto do meio dia acordo, zonza, ainda meio bêbada com uma ligeira ressaca e vejo Irma nua ao meu lado bela e desprotegida como uma criança. Encho-me de ternura, mas lembrando-me dos lances da noite, noto a falta de Alex... Ouço o violino. Levanto-me nua e ando pelo corredor a sua procura. Encontro-o no atelier diante de uma tela enorme em branco, desconhecida. Alex está nu tocando escalas complicadíssimas que se sucedem numa teia intrincada de sons que parecem sempre voltar ao ponto de partida. Meu olhar faz com que pare. Ele olha-me docemente, tristemente, e diz:

— Isto é a teia de Guarnerius. Escalas geniais inventadas pelo célebre luterista para testar seu instrumento às raias do absoluto. Por isso elas não progridem. Voltam e voltam sempre até serem interrompidas pela morte. Assim dizia ele.

Olho em torno e vejo a minha tela encostada num canto com um enorme “X” negro pintado por cima. Isso é demais! Grito-lhe: “Você não tem o direito! Maldito! Maldito! Você destruiu a minha obra! Por quê? Por quê?”

Alex estende a mão em súplica: “Alma, Alma, veja! Não podemos terminar o retrato. Irma irá embora. Vamos perdê-la. Ela aceitou o trato. Ficará somente até o término do quadro que imortalizará nosso Duo. Depois partirá imediatamente com o maldito noivo. O violinista do quarteto. Ele quer roubar-ma. Não permitirei. Não permitirei. Você tem que me ajudar. Você também ama Irma. Eu sei! Eu sei!”

Neste momento, ouvimos a chegada de um carro lá embaixo no pátio. Ruído de porta batendo. Uma voz grita: “Irma, Irma!” Alex corre a vestir sua calça preta. Entra no meu quarto e Irma já não está lá. Olho pela janela e vejo o carro partindo com Irma e o noivo em disparada. Alex somente de calça preta, o tronco e os pés nus corre atrás pelo cascalho, desvairado, gritando, gritando o nome de Irma. Encolho-me atrás da cortina, consternada, os olhos cheios de lágrimas e escorrego para o chão enrodilhada nela. Não quero ver mais nada. Não estou agüentando.

Silêncio absoluto. Vários minutos se passaram. Meia hora, talvez. Não ouço absolutamente nada. Nem o pio de um pássaro. Silêncio sepulcral. Estranho.

Levanto-me, saio do ateliê e começo a andar pelo corredor, abrindo as portas de um lado e de outro, procurando Alex. Nada. Tudo vazio. Torno a olhar, caminho até o fundo do corredor, onde agora percebo nunca ter ido. Encontro um vão escuro com uma pequena escada, estreita, em espiral. Subo nua, tateante, encontro uma porta, está encostada, empurro-a e entro num sótão.

À luz baça que entra por uma janelinha me obriga a adaptar a vista. Olho o chão empoeirado e, de repente, avisto o violino. O Guarnerius de Alex. No chão, sem o arco, sem cordas em meio a uma poça de sangue. Horrorizada percebo que pingos continuam a cair sobre o tampo. Ergo os olhos e oh! horror! Alex está pendurado na viga do teto pelo pescoço, pelas cordas emendadas do violino, tão finas e resistentes que lhe cortaram o pescoço quase degolando-o. Sua cabeça pende, quase arrancada. O sangue escorre do corte pelo seu peito. Uma vertigem me toma. Tudo escurece e com um grito, desfalecendo, desabo na poeira.

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Acordo em meu leito, meu próprio leito em minha casa. Uma jovem negra está ao meu lado com uma compressa na mão. Sorri bondosamente e diz:

— Olá! Bem-vinda ao reino dos vivos. Você delirou bastante. Três dias e noites. Agora está bem. Não, não levante. Irma está aqui. Ela esteve ao seu lado a maior parte do tempo. Voltou no meio da lua-de-mel. Deve gostar muito de você. Posso deixá-la entrar? Ela está aí, no ateliê

Faço que sim com a cabeça, que está pesada e dói um pouco. Ela chama Irma, que entra radiosa. Estendo-lhe os braços e explodo em pranto, soluçando. Choro copiosamente, segurando-lhe as mãos convulsivamente. Ela as segura com lágrimas nos olhos. “Alex, Alex...”, murmuro.

Irma senta-se na cama e me abraça demoradamente, afagando minhas costas. Depois, lentamente, quando me vê mais consolada, olha-me nos olhos e diz:

    Meu marido está aí no seu ateliê admirando suas obras. Quer conhecê-la.

Posso deixá-lo entrar?

 Faço que sim e ela vai até a porta chama-o e volta com ele de braço dado. Estremeço. O jovem tem os mesmos traços de Alex. Uma estranha semelhança. Apenas... sem aquele toque aquilino. É mais sereno, espiritualizado. Seus traços são mais abrandados, o nariz mais reto, os olhos mais doces. Estendo os braços para os dois e junto-lhes as mãos comovida.

Irma agora pode voltar para casa. Já posso dormir. Tudo está bem.

                                                     FIM

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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