A Ilha dos Mortos, de Arnold Böcklin
A teia de Guarnerius
(conto de Alma Welt)
Muito
já se falou das relações entre Música e Pintura. Não são tão óbvias, afinal, e
a sutileza dessas relações é instigante.
Estou imersa na pintura de uma grande tela da minha nova
“fase musical”, da qual acabo de realizar uma exposição numa galeria.
Escolhi, agora, para
ouvir enquanto trabalho, as “Árias Sertânicas” do Elomar, o querido menestrel
do sertão. Trata-se de um compositor, cantor e violeiro erudito, como vocês
sabem, e cheio de ecos medievais.
Coleciono, ultimamente,
reproduções de obras pictóricas que inspiraram composições musicais e
vice-versa. Soube que quadros de pintores russos foram identificados por
pesquisadores através da música descritiva de Mussorgsky dos “Quadros de uma
exposição”. Assim também o famoso quadro a “Ilha dos Mortos” de Arnold Böcklin
foi ilustrado pela música maravilhosa de Rachmaninov...
Toca o interfone.
Aborrecida com a interrupção atendo a portaria que anuncia um homem
desconhecido, que não marcou hora. Peço ao porteiro que ponha o desconhecido na
linha. Trata-se de alguém que se diz violinista e que quer fazer uma encomenda.
Diz ser fã do meu trabalho e pede-me para visitar-me. Não devia, mas mesmo um
pouco receosa aceito recebê-lo e o convido para subir, embora tenha notado algo
estranho em sua voz. Algo como uma vaga ansiedade e talvez dissimulação.
Posso estar enganada: não tenho elementos para qualquer
desconfiança séria. A verdade é que sou vaidosa e quando alguém se diz meu fã,
só por isso, já sai ganhando minha confiança. Gosto tanto da minha própria arte
que desconfio, sim, das pessoas que não compartilham dessa admiração. Não me
parecem interessantes. Desculpem-me. Sou assim.
Entretanto, aborrecida por interromper o trabalho, abro a
porta pensando em desculpar-me e dispensá-lo marcando outro dia para a sua
visita, quando a visão do jovem violinista me suspende a voz.
Trata-se de um belo rapaz de uns vinte anos, muito bem
vestido e nitidamente artista, com cabelos ondulados, vastos, à maneira do
século XIX. Sobrancelhas grossas, aquilinas e um nariz de gancho italiano, como
o de Dante. Uma estranha febre queima-lhe o olhar. Ele entra, um pouco
intempestivo, arrogante, fazendo-me recuar para apertar-lhe a mão. Vejo que ele
quer impor-se logo de saída e então concentro-me em juntar o meu modesto
arsenal de defesa e ataque emocionais.
Ele senta-se sem ser convidado e depois de olhar-me
penetrantemente a ponto de me causar calafrios, diz:
— Vi sua exposição e apreciei sua fase musical. Você é a
artista que escolhi para o retrato do Duo. Meu nome é Alexandre, sou violinista
e trabalho com minha irmã Irma, pianista. Diga-me o que precisa, o seu preço
para um grande retrato e tudo mais. Mas comece logo, tenho pressa e imensa
necessidade desse duplo retrato.
Espantei-me com sua atitude impositiva. Ia responder-lhe à
altura mas lembrei-me das dificuldades financeiras em que vivo e resolvi ser
humilde e aceitar o jogo. Fingi naturalidade e contive uma veia irônica que
aparece quando estou insegura.
— Claro, Alex, por que não? Se você me escolheu, fico
lisonjeada. Só por isso você merece que eu faça o tal retrato. Quando quer que
eu comece? Mas diga-me, o que o fez pensar em mim para um retrato, se a minha
fase musical é semi-abstrata? Não sou pintora acadêmica, você sabe, não espere
de mim um retrato tradicional.
— Não, não, respondeu. É você, tenho certeza. Tem toda a
liberdade, desde que seja um duplo retrato, isto é, o retrato do Duo. Mas é
preciso que venha à nossa casa. Ali temos os nossos instrumentos e você terá
tudo o que precisa. Você pode me acompanhar já? Agora? Estou ansioso em
apresentar-lhe Irma.
Senti-me sendo aliciada, um tanto pressionada, mas a
curiosidade, meu principal defeito ou qualidade, venceu.
Acompanhei-o afinal, sem hesitações. Quando embarco, embarco.
Lá fomos nós, elevador abaixo, depois até à rua, passando pelo tal porteiro
indiscreto, que me olhou agora com um ar de censura nada paternal. Esse homem
me irrita. Parece querer controlar minha vida, de maneira suspeita. Mas,
deixemos isso para lá...
O carro de Alex, um belíssimo carro importado,
surpreendeu-me, embora eu não seja ligada nessas coisas. Mas, um violinista...
No trajeto Alex procurou mostrar-se encantador e cumulou-me de
elogios, inclusive à minha beleza, que o teria surpreendido. “Não esperava mais
que uma pintora de talento”, o que me fez sorrir. Como se fosse pouco... Enfim,
quem não gosta de elogios? Vanitas,
vanitatis...
Chegamos afinal à casa de Alex. Fiquei boquiaberta. O carro
atravessou um imenso portão de ferro meio art
nouveau e subiu uma alameda sombreada por imensas árvores até o topo de uma
colina onde estava plantada uma enorme mansão. Um verdadeiro palacete.
Meu
assombro e curiosidade aumentavam. Entramos pela porta senhorial, num imenso
vestíbulo, de mármore, estranhamente vazio, sem nenhum móvel. Alex ia agora na
frente siceroneando. Não havia nenhum mordomo, o que me surpreendeu, dada as
dimensões da casa. Na verdade não se avistava nenhum empregado e comecei a
perceber alguns sinais de decadência, aqui e ali, nos poucos móveis, no
estranho vazio das salas, que às vezes ostentavam apenas uma pilha de
partituras sobre o assoalho, no centro, insolitamente.
Conduziu-me por uma imensa escada, maravilhosa, em caracol,
ao andar superior, atravessamos corredores vazios, uma ou outra cômoda antiga,
belíssimas, e marcas vazias de quadros nas paredes, com cachos de poeira
pendendo dos pregos. Eu estava atônita. Afinal bateu cuidadosamente os nós dos
dedos numa porta fechada, que demorou a abrir-se. Apareceu uma bela moça de
olhar brilhante e cabelos pretos presos em cima a maneira do penúltimo século.
Alex apresentou-nos. Era Irma, a irmã pianista, que estendeu-me sua bela mão de
dedos compridos. Notei também seu pescoço comprido, de bailarina, parecido com
o meu. O cabelo levantado destacava graciosamente a curva sutil da nuca, no
ápice da feminilidade. Minha simpatia estética foi instantânea.
Acompanhou-nos pelo corredor até um quarto mais ao fundo
onde, entrando, deparei com um verdadeiro salão com apenas um piano de cauda,
negro, imenso e uma estante de música, ao lado, com partitura aberta. Próximo
do centro, um grande cavalete de pintura novo, sem uma mancha de tinta sequer,
causou-me má impressão. Para um pintor, um cavalete limpo é horrível, quase
como um cadáver: não respira.
Alex olhou para nós ardentemente e com gestos nervosos abriu
a tampa do piano, ajeitou a partitura que se encontrava nele e pediu a Irma que
se sentasse na banqueta. Dirigiu-se até um canto onde apanhou uma caixa de
violino que se encontrava no chão, tirou-o e dirigindo-se à estante olhou
impositivamente a irmã, com um olhar de maestro, e atacou a Rapsódia Húngara de
Liszt, acompanhado nervosamente pela pianista. Não pude deixar de notar o olhar
incomodado de Irma, apesar do talento visível e audível dos dois.
Deixo-me envolver pela música maravilhosa e empolgante de
Liszt, tocada divinamente pelo Duo. Depois os dois me olham ao mesmo tempo e eu
os aplaudo, acenando também com a cabeça em assentimento. Estou pronta para
aceitar sem mais reservas a encomenda.
Alex recomenda-me que compre uma tela bem grande. Que eu não
poupe dinheiro, que mande todas as faturas do material para ele. Mas,
sobretudo, faz questão que eu me mude para sua casa. Dito isso, enquanto
caminhamos no corredor, abre subitamente uma porta e mostra-me um belo quarto,
para minha surpresa, totalmente mobiliado com uma grande cama de dossel, com os
lençóis novos, lindos, e grandes travesseiros. Armário, cômodas, penteadeira com
escovas e perfumes e até cosméticos. Tudo extremamente novo como se preparado
para uma hóspede especial, que percebo ser eu, quando olho o rótulo de meu
próprio perfume sobre a cômoda. Alex dera-se ao trabalho de investigar isso na
galeria, certamente. Dou um sorriso e digo a ele, que não parou de me
surpreender desde o nosso encontro algumas horas atrás.
Depois, ele me leva de volta ao meu prédio para que eu possa
preparar minhas malas e providenciar os materiais, combinando voltar dentro de
poucos dias.
Passados três dias de preparativos, em que Alex não deixou de
me ligar um só dia, declaro estar pronta e com as encomendas encaminhadas para
a casa dele. Que ele venha me buscar.
Instalo-me, afinal, no meu quarto de hóspede que agora
ostenta flores sobre a cômoda. Uma grande corbeille
com um galante cartão: “Para a Pintora tão esperada, nossas homenagens. Alex e
Irma”. Sorrio e reponho o cartão no meio das flores. Preciso agora deitar-me e
dormir o sono das “justas”.
Lá pelo começo da madrugada, já estou sonhando. Estranhos
presságios povoam meu sonho. Estou descendo por uma tosca escadaria de pedra de
uma caverna até um salão abobadado atraída pela música de um violino hipnótico.
Ali encontro uma sombra sem rosto, embuçada e encapuçada, que toca o violino
com incrível virtuosismo. Sou envolvida por essa música e começo a flutuar em
seu som enquanto a sombra me leva por este meio a um corredor sem fim que sai
desse salão. Tenho medo, pois sinto-me descer ao seio da Terra. Algo me diz ser
uma viagem sem volta. Debato-me no ar parado que estranhamente me conduz nas
ondas da música. Agarro-me a uma estalactite que se quebra. À outra, e ainda à
outra. Abro a boca para gritar o nome de Alex e acordo.
Em frente à cama está ele, o violinista, com seu estranho
olhar fixo e brilhante. Ele faz schhh! schhh! entre dentes, com a poderosa mão
direita estendida, apaziguando. Tem o violino e o arco na mão esquerda.
Soergo-me na cama e olho para ele, que me aquieta, faz-me deitar novamente,
cobrindo-me quase paternalmente. Depois sai apagando novamente a luz com o dedo
nos lábios sempre fazendo um schhh schhh calmante. Viro-me de lado e durmo
tranqüila.
Acordei bem cedo e tendo-me vestido encaminho-me para a
escadaria para procurar a cozinha. A casa está terrivelmente silenciosa. De
súbito, ouço vozes que vêm de um quarto, em diálogo exasperado. Distingo,
surpresa, a voz de Alex num tom inusual de súplica, e a voz de Irma reticente,
inflexível, teimosa. Disfarço a tentação, faço um esforço para não colar o
ouvido à porta e discretamente sigo em frente.
Na cozinha espera-me um café da manhã pronto misteriosamente.
Logo chega Alex para toma-lo comigo. Pede desculpas por Irma que não vai
descer, pois está dormindo. (Estranhei esta pequena mentira).
Alex procura mostrar-se encantador, mas noto-lhe uma certa
tristeza e nervosismo. Tenta falar sobre pintura, mas seu pensamento realmente
está lá em cima, percebo.
Peço-lhe licença e subo para o ateliê para preparar o
material. A imensa tela quadrada chegou ontem à tarde. Desembalo-a com esforço:
não tenho ajudantes.
As dez horas em ponto, os irmãos entram no ateliê, Irma
senta-se ao piano, Alex pega seu instrumento e poem-se a tocar durante um certo
tempo, enquanto preparo as tintas sobre uma paleta nova. Depois param e
permanecem imóveis enquanto esboço o quadro. Estávamos lançados à aventura.
Assim eu o sentia. Agora tudo podia acontecer. Ah! Como eu estava certa, por
outras razões, sem o saber.
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Estou aqui já há duas semanas. Temos nossa rotina de trabalho
e o quadro avançou rapidamente no início. Os irmãos sempre tocam para mim, ou
para eles mesmos, antes de posarem e isso me é muito agradável. Não me canso de
admirar-lhes o virtuosismo e sua beleza de músicos divinamente dotados.
Todavia, noto que o casal de irmãos, agora, pouco se fala e Alex permanece com
aquele olhar febril e aquele nervosismo crescente. Irma parece estar fazendo
algo contra sua vontade ao posar, e isso me deixa também incomodada. O quadro
parou de avançar como se sua progressão andasse em círculos. Bem, o domínio que
um artista tem de seu quadro é relativo. A obra de arte comanda a si própria em
certa medida e não fazemos mais que cumpri-la. Mas se houvesse um outro clima
nas sessões, creio que a coisa fluiria melhor. Alex parece, agora, sabotar o
processo retirando-se a toda hora a pretexto de providenciar pequenas coisas.
Uma vez, retirou-se para aparar as unhas, quando estava, apenas posando e não
tocando. Começo a desconfiar que algo se passa que me é estranho, do qual não
sou participada. Irma olha às vezes o irmão com um olhar quase de ódio. Alex
mal consegue encará-la, todavia deita-lhe um olhar que a abrange por inteiro, como
uma ave de rapina.
Agora, ouço, cada vez mais, discussões e murmúrios amargos
atrás das portas. Tenho a sensação de estar sendo usada sem atinar o por quê.
As semanas se passam e Alex procura manter-se encantador comigo. Mas percebo
nele um quê de manipulador. Usa freqüentemente a lisonja vã, inútil. Será que
ele subestima minha inteligência? Se as coisas progredirem no rumo em que estão
tendem a se tornar insuportáveis, mas não sei bem por que. Há um mistério em
tudo isso.
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Acordo no meio da noite com um rumor de soluços e palavras
ásperas. Uma amarga discussão fere o silêncio da noite naquele corredor
soturno. Não resisto e, revoltada, saio de peignoir
para ouvir junto à porta do quarto de Irma. Ouço-lhes claramente as palavras
pela primeira vez, talvez com a ajuda do silêncio da madrugada. Alex
promete-lhe algo mas exige que ela cumpra o trato. Que trato? Estou muito
atenta à mínimas palavras e inflexões para destrinchar este enigma. Alex
dirige-se, afinal, para a porta, eu o sinto, e corro a esconder-me em meu
quarto. Meto-me na cama como uma criança travessa e curiosa. Mas com uns poucos
dados a mais para a solução do mistério.
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As
sessões de pose do retrato estão cada vez mais penosas. Alex sabota cada vez
mais o processo, agora fazendo críticas impertinentes. Têm dias que não
comparece às sessões, encerrando-se em seu quarto com pretexto de enxaquecas.
Um dia apareceu no ateliê com o pé enfaixado, apoiado em uma
bengala antiga, de família, uma verdadeira antigüidade. Queixava-se de gota, o
que me pareceu decididamente demodée, num
decadentismo bem a seu gosto. Tinha de munir-me de imensa paciência. O quadro
não avançava. As semanas se passavam. Um dia pus-me a trabalhar febrilmente no
quadro sem os modelos. Descobrira que não necessitava mais deles. Em pânico,
Alex entrou no ateliê e fez tal agitação que acabou tropeçando e derramando um
litro de solvente sobre a tela, num suspeito acidente. Isso foi demais! Atirei
os pincéis ao chão, furiosa diante da tela escorrida. Tinha vontade de
bater-lhe. Ele não me enganava mais.
A sabotagem era explícita, embora ele gaguejasse desculpas. Retirei-me chorando
para o meu quarto, atirando-me em soluços sobre a cama. Pouco depois, ele
invadiu o quarto implorando perdão. Logo recuperou seu auto-domínio e começou a
exercitar o seu charme com um tom consolador. Puxou minha cabeça para o seu
peito e abraçando-me propôs-me uma festa de reconciliação para nós três.
Aquela noite nós nos divertiríamos.
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À tarde, estando ociosa, perambulei pelo casarão. O trabalho
estava suspenso, sentia-me livre para exercitar a minha curiosidade. Fazendo
hora para esperar a noite de festa, abria todas as portas, deparando-me com
quartos e salões totalmente vazios. Era evidente que os irmãos viviam há muito
tempo da venda dos móveis e objetos da família.
Finalmente encontrei um aposento totalmente mobiliado. O
escritório ou biblioteca. Continha a estória da família em centenas de fotos
nas paredes ou em porta retratos sobre a mesa e as estantes. Distinguia-se
entre retratos de músicos famosos, maestros, violinistas, pianistas etc., as
fotos do pai de Alex e Irma. Um maestro de maravilhoso semblante
espiritualizado. E da mãe, pianista famosa na juventude, de quem Irma
nitidamente puxara os traços e a beleza. Esta tinha um ar resignado, de quem
renunciara a sua vocação de concertista para dedicar-se à família.
Alex herdara os traços do maestro, mas sem aquela serenidade
e espiritualidade. Na verdade, perto daquela fotografia, a de Alex parecia a de
uma alma perdida. Tive um calafrio. Tristes pressentimentos me assaltavam.
Continuei olhando os prêmios e diplomas copiosos pelas paredes. Um prêmio de
solista recebido por Alex aos doze anos, menino prodígio, com seu espesso
cabelo crespo e já com um olhar de pequena águia, ao lado do indefectível
retrato a lápis de Paganini, com seu violino debaixo do braço, de autoria de
Ingres. Reparei que o olhar de Paganini, com sua injusta fama de alma danada,
era doce comparado ao de Alex.
Notei também que o casal de irmãos fazia um Duo desde a
infância. Fotos e recortes de jornal atestavam isso. Parecem ter feito muito
sucesso. Aqui uma notícia notável: Alex, aos vinte anos, tocando com Irma ganha
um famoso concurso internacional. Seu prêmio, dado pela Comunidade Musical
Italiana: um violino Guarnerius! Noto também que o olhar de Alex sempre se
dirige à irmã nas fotos de concerto, de entrevista e de notícias nos jornais. A
obsessão já era visível. Por que não pensei nisso antes? Uma suspeita
insinua-se em minha mente. Saio correndo deste aposento carregado de memórias.
Estou furiosa. É evidente que estou sendo usada por Alex. Não
há mais dúvida e já suspeito o por que. Resta-me descobrir o motivo das
discussões entre os dois. Vou tirar isso a limpo, antes que alguém se machuque.
Não serei eu. Não admito! Não admito...
Ao crepúsculo, chega um carro esporte conversível vermelho
deslumbrante. Olho pela janela do meu quarto sua chegada ao pátio entre a casa
e o jardim. Vejo um belo jovem elegante, que olha para cima, para as janelas
por alguns segundos. Escondo-me instintivamente atrás da cortina. Alex vai ao
seu encontro e os dois se confrontam diante do carro. Há uma discussão. É
evidente que o Alex quer expulsá-lo. Ele empurra Alex e, gritando por Irma,
corre para dentro da casa. Alex corre atrás e após alguns segundos os dois
rolam para fora agarrados e aos murros. Parecem desesperados, principalmente Alex.
Afinal, o rapaz, batendo o pó da roupa e limpando o sangue
dos lábios com as costas da mão, entra no carro e sai guinchando os pneus. Alex
brande os punhos desvairado e reentra na casa. O silêncio volta a reinar.
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Chega a noite. Visto-me com o meu melhor vestido, um longo
dourado deslumbrante. Devo estar à altura das circunstâncias. Preciso estar
bela. Sinto que esta festa é um armistício numa espécie de guerra
incompreensível. Não sei bem onde estou pisando, mas aceito o desafio.
Pressinto que devo me aproximar mais de Irma. Ela é a chave desse enigma. Quem
é ela? Por que vive aqui com o irmão, uma moça tão linda? Por que se sujeitou a
sua visível tirania? Ao mesmo tempo é evidente que está se rebelando. Daí o
conflito, a tensão perceptível no ambiente.
Às onze horas desço a escadaria. Sinto-me bela, meu cabelo
brilha, meus lábios ostentam um leve batom voluptuoso. Diverte-me a idéia da
descida hollywoodiana da escada em caracol. Alex e Irma esperam-me embaixo no
grande salão. Estão belíssimos. Alex num primoroso smoking e Irma num longo prateado com um espantoso colar antigo, de
família. Como sobrou isso? pensei sem querer...
Recebem-me estendendo-me as mãos ao mesmo tempo. Como são
graciosos!... Estarei a altura deles? São verdadeiros aristocratas e eu me
sinto tantas vezes uma operária da pintura. Não, não. Somos da mesma estirpe,
devo reconhecer. Nada de falsa modéstia. Nada de situações falsas, se possível.
Odeio situações falsas.
Alex, que tem um braço para trás, escondendo algo, revela
subitamente um trio de meias-máscaras de Veneza. Era só o que faltava.
Escolhemos nossas máscaras e não mais as tiraríamos por muitas horas. A noite
era uma criança, como se diz. Tudo poderia acontecer. No meio do salão uma
pequena mesinha redonda de perna alta ostentava um candelabro com velas e uma
garrafa de vinho com três taças. Alex nos serve e a seguir liga uma vitrola de
prato com um antigo disco de vinil. Ouve-se o som de uma banda de jazz dos anos
trinta. Alex sempre surpreendente...
Os irmãos, subitamente, como que ensaiados, começam a
sapatear com perfeição e graça no estilo Fred e Ginger. Fazem um número
inteiro, encantador. Aplaudo entusiasmada este outro talento inesperado dos
dois. A noite promete ser cheia e agradável. Como Irma é bela e graciosa!
Começo a compreender Alex a medida que o vinho sobe lentamente e libera-me.
Tiro-a para dançar, sob o olhar aprovativo de Alex. Fazemos charme para ele,
dançando de rosto colado, as duas, como namorados. De repente, beijamo-nos nos
lábios. Alex revira os olhos num gesto engraçado, girando o corpo e deslizando
como Fred Astaire com uma bengalinha invisível. Sentimo-nos todos charmosos e o
jogo promete continuar noite a dentro. Alex agora tira-me dos braços de Irma e
colando seu rosto ao meu faz uma espécie de picuinha cênica para a irmã que
finge ciúme. Logo estamos os três dançando juntos abraçados com os rostos
colados. Separamo-nos para buscar mais vinho, sempre sem parar de dançar e sem
tirar nossas máscaras. Elas parecem nos proteger: ousaremos tudo esta noite.
Após horas de vinho, música e dança, inebriada, sinto-me
apaixonada por estes dois. Formamos um portentoso trio, me parece tudo
perfeito.
Quero coisas que nem ouso pensar. Os dois colam-se a mim
prensando–me voluptuosamente. Sinto os seios de Irma achatados sobre os meus e
o volume do pênis de Alex entre as minhas nádegas. Deixo-me levar escada acima
puxada ora por Irma ora por Alex, a cada degrau, sempre no ritmo da música de
jazz. Chegamos, afinal, ao meu quarto e lançam-me sobre a cama. Alex, que já
retirara o paletó e a camisa na escada, tem somente a gravata borboleta no
pescoço nu, enquanto Irma faz desabar seu longo com um único golpe de zíper.
Ainda com o colar no pescoço atira-se nua sobre mim enquanto Alex puxa-me o
longo pelos pés junto com a calcinha, com habilidade satânica. Sempre
virtuoses, manobram-me como um violino ou como um teclado. Quero morrer de prazer.
Fazem um maravilhoso sanduíche com meu corpo, ora um, ora outro por cima.
Beijam-me ardentemente o corpo todo e devassam-me com suas línguas,
revezando-se lá embaixo, atrás, na frente. Explodo em orgasmos e sacudimos os
três simultaneamente. É a perfeição! Mergulhamos no sono dos deuses quase ao
alvorecer.
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Perto do meio dia acordo, zonza, ainda meio bêbada com uma
ligeira ressaca e vejo Irma nua ao meu lado bela e desprotegida como uma
criança. Encho-me de ternura, mas lembrando-me dos lances da noite, noto a
falta de Alex... Ouço o violino. Levanto-me nua e ando pelo corredor a sua
procura. Encontro-o no atelier diante de uma tela enorme em branco,
desconhecida. Alex está nu tocando escalas complicadíssimas que se sucedem numa
teia intrincada de sons que parecem sempre voltar ao ponto de partida. Meu
olhar faz com que pare. Ele olha-me docemente, tristemente, e diz:
— Isto é a teia de Guarnerius. Escalas geniais inventadas
pelo célebre luterista para testar seu instrumento às raias do absoluto. Por
isso elas não progridem. Voltam e voltam sempre até serem interrompidas pela
morte. Assim dizia ele.
Olho em torno e vejo a minha tela encostada num canto com um
enorme “X” negro pintado por cima. Isso é demais! Grito-lhe: “Você não tem o
direito! Maldito! Maldito! Você destruiu a minha obra! Por quê? Por quê?”
Alex estende a mão em súplica: “Alma, Alma, veja! Não podemos
terminar o retrato. Irma irá embora. Vamos perdê-la. Ela aceitou o trato.
Ficará somente até o término do quadro que imortalizará nosso Duo. Depois
partirá imediatamente com o maldito noivo. O violinista do quarteto. Ele quer
roubar-ma. Não permitirei. Não permitirei. Você tem que me ajudar. Você também
ama Irma. Eu sei! Eu sei!”
Neste momento, ouvimos a chegada de um carro lá embaixo no
pátio. Ruído de porta batendo. Uma voz grita: “Irma, Irma!” Alex corre a vestir
sua calça preta. Entra no meu quarto e Irma já não está lá. Olho pela janela e
vejo o carro partindo com Irma e o noivo em disparada. Alex somente de calça
preta, o tronco e os pés nus corre atrás pelo cascalho, desvairado, gritando,
gritando o nome de Irma. Encolho-me atrás da cortina, consternada, os olhos
cheios de lágrimas e escorrego para o chão enrodilhada nela. Não quero ver mais
nada. Não estou agüentando.
Silêncio absoluto. Vários minutos se passaram. Meia hora,
talvez. Não ouço absolutamente nada. Nem o pio de um pássaro. Silêncio sepulcral.
Estranho.
Levanto-me, saio do ateliê e começo a andar pelo corredor,
abrindo as portas de um lado e de outro, procurando Alex. Nada. Tudo vazio.
Torno a olhar, caminho até o fundo do corredor, onde agora percebo nunca ter
ido. Encontro um vão escuro com uma pequena escada, estreita, em espiral. Subo
nua, tateante, encontro uma porta, está encostada, empurro-a e entro num sótão.
À luz baça que entra por uma janelinha me obriga a adaptar a
vista. Olho o chão empoeirado e, de repente, avisto o violino. O Guarnerius de
Alex. No chão, sem o arco, sem cordas em meio a uma poça de sangue. Horrorizada
percebo que pingos continuam a cair sobre o tampo. Ergo os olhos e oh! horror!
Alex está pendurado na viga do teto pelo pescoço, pelas cordas emendadas do violino,
tão finas e resistentes que lhe cortaram o pescoço quase degolando-o. Sua
cabeça pende, quase arrancada. O sangue escorre do corte pelo seu peito. Uma
vertigem me toma. Tudo escurece e com um grito, desfalecendo, desabo na poeira.
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Acordo
em meu leito, meu próprio leito em minha casa. Uma jovem negra está ao meu lado
com uma compressa na mão. Sorri bondosamente e diz:
— Olá! Bem-vinda ao reino dos vivos. Você delirou
bastante. Três dias e noites. Agora está bem. Não, não levante. Irma está aqui.
Ela esteve ao seu lado a maior parte do tempo. Voltou no meio da lua-de-mel.
Deve gostar muito de você. Posso deixá-la entrar? Ela está aí, no ateliê
Faço que sim com a cabeça, que está pesada e dói um pouco.
Ela chama Irma, que entra radiosa. Estendo-lhe os braços e explodo em pranto,
soluçando. Choro copiosamente, segurando-lhe as mãos convulsivamente. Ela as
segura com lágrimas nos olhos. “Alex, Alex...”, murmuro.
Irma senta-se na cama e me abraça demoradamente, afagando
minhas costas. Depois, lentamente, quando me vê mais consolada, olha-me nos
olhos e diz:
—
Meu marido está aí no seu ateliê admirando suas obras.
Quer conhecê-la.
Posso deixá-lo entrar?
Faço que sim e ela vai até a porta chama-o e
volta com ele de braço dado. Estremeço. O jovem tem os mesmos traços de Alex.
Uma estranha semelhança. Apenas... sem aquele toque aquilino. É mais sereno,
espiritualizado. Seus traços são mais abrandados, o nariz mais reto, os olhos
mais doces. Estendo os braços para os dois e junto-lhes as mãos comovida.
Irma agora pode voltar para casa. Já posso dormir. Tudo está
bem.

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